terça-feira, 10 de setembro de 2013

Chagas Filho: Vivemos numa ditadura




Redação de jornal é terreno fértil para muitos debates, que poucas vezes vão parar nas páginas que chegam ao consumo do leitor. Nesses ambientes, conversamos tanto e sobre tantas coisas, com tamanha desenvoltura que dificilmente o faríamos noutro espaço.
Um dos últimos assuntos em debate, que quase faz uma equipe inteira varar a madrugada em discussões foi sobre as ditaduras, os regimes ditatoriais que, em pleno Século 21, ainda norteiam os rumos de muitas sociedades.
Falamos, por exemplo, de Cuba, que apesar de sua importância como modelo de uma sociedade que não se curva diante a imposição estadunidense, lamentavelmente (ou não) é uma ditadura.
Mas aí me ocorreu uma coisa: nós também vivemos numa ditadura.
Comemoramos o fato de viver no Brasil, um país “livre”, cheio de riquezas, de natureza exuberante e com poucas catástrofes naturais.
Mas será que o Brasil é tão “livre” como se prega? Eu acho que não.
O Brasil oferece toda a liberdade do mundo para quem tem um bom poder aquisitivo.
O nosso País é belo, mas quem tem condição de conhecer o nosso bonito litoral nordestino ou a opulência gelada e confortável do sul maravilha?
Vamos mais perto. Quantos de nós temos condição de levar os filhos para nosso novíssimo Shopping Center todo final de semana? Quem tem dinheiro para isso?
Falemos de coisas mais cruciais. Quantos de nós temos condição de pagar um bom plano de saúde? Ou quantos de nós teríamos condição de fretar um avião para salvar a vida de um filho num momento de desespero provocado por um acidente?
A Constituição nos dá o direito de ir e vir, mas para isso temos que pagar mototaxi, taxi e ônibus. Isso é tão absurdo quanto real, ainda mais numa cidade impopular como Marabá, que foi pensada e projetada para quem tem carro. Ciclistas e pedestres são subclasses.
Quando estudantes, ou sem-terra interditam rodovias e ruas, ficamos logo indignados, esbravejando pelo sagrado direito de “ir e vir”, sem nos dar conta de que esse é um direito muito restrito, porque vivemos numa ditadura.
Dizem por aí que temos o direito à livre expressão, mas vá falar de certas famílias que estão no poder há décadas, para ver o que acontece.
Não temos sequer o direito a moradia. Quantas ocupações urbanas e rurais existem no País, ao passo em que há pessoas que são donas de dezenas de terrenos na cidade e no campo. Será que está certo?
E quando somos presos, quem sai primeiro da cadeia? O inocente ou o culpado? Nenhuma das respostas anteriores. Sai primeiro quem tem dinheiro pra pagar o melhor advogado. Não importa se você é culpado ou inocente.
O Estado não funciona para os pobres; funciona contra os pobres.
O pior dessa “ditadura do dinheiro” é que ela não foi construída a partir do suor de cada um. Não foi o trabalhar mais ou o trabalhar menos que formou as classes de pobres oprimidos e de ricos opressores; foi a corrupção que chegou ao Brasil junto com os colonizadores em 1500 e permanece viva até hoje como um verme eterno corroendo gerações e determinando quem passará a vida sendo escravo dos ditadores.
De onde veio e ainda vem o dinheiro dos ricos do País? Vem do poder público, do governo federal, do Estado e das prefeituras. É de lá que vem a grana, a grana do povo, que favorece apenas alguns e mantém a maioria na servidão.
Aqueles que encontraram o “canal” para viver sugando os cofres públicos dominam o povo e lhes tiram o direito à vida, dando-lhe apenas o direito à sobrevida, mas “Sobreviver não é viver” (Willian Shakespeare).
O que mais me incomoda e me revolta é que não vemos a cara do ditador; não temos contra quem lutar. É uma ditadura cínica, que formou um sistema que impede as políticas públicas de darem liberdade ao povo e, ao mesmo tempo, despeja rios de dinheiro nas mãos de quem já tem até demais.
Essa lógica em que vivemos precisa mudar; precisa sofrer um retrocesso de 180 graus, do contrário as diferenças sociais vão se intensificar cada vez mais. Pode haver mais conflitos, mais tumulto, mais “baderna”.
O problema todo é que “o mundo está ao contrário e ninguém reparou”... Ainda.

(*) O autor é jornalista e pedagogo formado pela UFPA.

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